12 de novembro de 2016

je quitte le français

Há três anos eu tenho aulas de francês todos os sábados das nove ao meio dia. Abri mão de muitos bares e festas em sextas à noite para conseguir acordar cedo no dia seguinte. Bonjour, ça va, prof? Já fui de ressaca para a aula também, claro. No segundo módulo, tinha uma menina na minha classe que estava sempre de ressaca. Ela só durou um semestre, pas de surprise.
Eu amo o francês, acho a língua mais maravilhosa do mundo (ia falar do universo, mas não sabemos que outras línguas existem por aí). Oui, ma chérie, uma língua romântica, sonora, para falar baixinho e com a voz um pouco rouca. Arrepia, envolve.
Nunca estive na França (está nos planos para 2017), mas gosto de me imaginar vivendo na Provence, dona de uma boulangerie, casada com o dono de uma vinícola. Saindo para trabalhar na minha vélo, usando calças capri de linho que nunca amassam. J'ai des gâteaux que tu adores, madame!
Mas não sei o que aconteceu, de repente eu peguei um bode gigantesco do francês. Não consigo mais ir para a aula, não tenho nenhuma motivação. Continuo lendo e vendo filmes e ouvindo músicas e vivendo a francofonia, mas meu entusiasmo por aprender - principalmente gramática, que sempre foi grande, j'aime la gramática - desapareceu. C'est fini.
Não sei o que fazer. Estou entre dar um tempo do curso, contratar um professor particular (quem sabe mudar o método de ensino ajude) ou fazer um intercâmbio nas próximas férias. A última opção me parece a mais interessante, vamos ver. Só sei que estou triste desse relacionamento tão bonito ter chegado ao fim. Je suis désolée.

11 de novembro de 2016

ler: uma obsessão

Anos atrás, vi um Tumblr (na época, o Tumblr estava em alta) de uma menina que tinha lido cem livros em um ano. Boa parte era infantil, mas, ainda assim, um grande feito. Achei o desafio interessante e pensei que poderia copiar. Em seguida, percebi que o número era absurdo e reduzi para cinquenta. Desde então, todos os anos me coloco a meta de ler cinquenta livros.
Nunca consegui. O máximo foi quarenta e dois em 2012. Esse ano, estou na marca dos trinta e seis - já não vai mais dar tempo. Acredito que meu erro seja escolher histórias muito extensas, raramente pego livros com menos de trezentas páginas.
Essa semana, estava com alguns amigos em uma reunião do nosso clube do livro (resolvemos criar um clube do livro recentemente) e comentei sobre meu objetivo nunca alcançado. Uma menina me perguntou, incrédula: você já leu trinta e seis livros esse ano? Mas livros bons ou qualquer coisa?
Óbvio que li muita porcaria. Um monte de livros que não me acrescentaram nada. Posso contar em uma mão os que realmente me fizeram refletir ou colocaram meu cérebro para funcionar. Caí na real: onde eu quero chegar com essa meta de cinquenta livros?
Então, tomei uma nova decisão: ano que vem, vou prezar qualidade à quantidade. Não vou correr atrás de cinquenta livros mais ou menos, vou ler apenas doze. Doze livros bons, um para cada mês de 2017. Livros que me tirem da rotina, que me deixem acordada pensando, mudem minha visão de mundo. Que me deixem mais inteligente, me façam experimentar novas formas de trabalhar a língua. Aquele tipo de livro que, de vez em quando, você precisa parar, fechar e olhar para o nada para pensar no que acabou de ler. Clássicos, livros premiados, bons autores. Quem sabe até eu não finalmente viaje para a FLIP.
Não que eu não vá ler os quaisquer coisa também. Ninguém é de ferro.

10 de novembro de 2016

o caso do design

Quando o design de uma página se tornou tão importante na hora de escrever? O drama de escolher a fonte certa: serifada ou sem serifa? Fundo branco para um visual clean ou bege para a leitura ser mais confortável? O fundo do Kindle é branco e ele é confortável de se ler. Será que esse tamanho de fonte está bom? O texto parece grande demais assim. Ilustro ou não? Uma imagem vale mais do que mil palavras, mas eu sou escritora, não ilustradora. Quanto custa um curso de ilustração? Quando eu tinha nove anos, minha professora de arte disse para a minha mãe que eu tinha talento. Devia ter desenvolvido esse dom. Por que parei de desenhar? Para escrever?
Antes dos computadores, as pessoas ficavam formatando as páginas na máquina de escrever? Durante um tempo, queria muito uma máquina de escrever, achava que ia me ajudar a focar. Fiquei chateada pelo meu pai ter se desfeito da dele. Era muito dura de teclar, ele me falou, você não ia gostar. Mas também não ia precisar escolher a fonte, só tinha uma opção.
E antes das máquinas? Caligrafia é uma coisa linda, também morro de vontade de aprender. Onde eu acho um curso? Será que eu tenho tempo para um hobby desses? Mas as pessoas não escreviam grandes textos com caligrafias trabalhadas, devia ser muito cansativo. Meu pulso dói se escrevo muito à mão, já perdi o costume. Engraçado que, na época do colégio, eu podia escrever páginas e páginas, treinando para o vestibular. Os músculos do meu pulso devem ter atrofiado com o passar dos anos.
Mas fico imaginando os escritores do passado tendo que escrever seus romances à mão, sem precisar se preocupar com a fonte ou o design da página. O conteúdo, se dedicavam apenas ao conteúdo. Jane Austen em sua escrivaninha com uma pilha de páginas ao lado e a caneta tinteiro. Sempre imagino a Jane Austen, não sei por quê. Claro que ela tinha os dramas dela, as folhas podiam se perder, voar, a tinta da caneta manchar todo seu trabalho, ela podia perder algum original e ter que começar tudo de novo porque nada ficou salvo na nuvem.
Vou tentar escrever algo à mão qualquer dia, fazer um trabalho artesanal, para ver como me saio. Só preciso decidir que caneta usar. E a folha: pautada ou sem pauta?

4 de novembro de 2016

uma década, um desabafo

Quando criei o Hialoplasma, eu tinha dezessete anos e queria ser jornalista. Hoje, eu tenho vinte e sete anos e não sei o que quero ser.
Desde o começo deste ano, eu vinha ensaiando para voltar com o blog. Sentia uma vontade incontrolável de escrever todas as ideias que eu tinha na cabeça. A maioria é sobre nada importante.
Quando entrei na faculdade de jornalismo, descobri que o jeito que eu escrevia não era muito jornalístico. Então, me ensinaram o que era pauta, lide, pirâmide invertida. No terceiro ano, tive um professor de redação que dividia a nota em metade gramática e metade estilo e eu sempre tirava nota baixa em estilo. Mais tarde, ele foi meu orientador do TCC, eu comentei isso com ele, que ficou chateado. Mas a verdade é que saí da faculdade mais insegura do que quando entrei.
Comecei a estagiar na mesma época que blog virou profissão e marcas entraram nas redes sociais. Então, um bom texto na internet era o que rendia muitos cliques e eu tinha que saber fisgar o leitor com um título chamativo, um tuíte, hashtags, informação rápida.
Depois de formada, fui trabalhar com revista customizada e aprendi a escrever o que meu cliente gosta de ler. Como vender bem o produto, descrever seus benefícios, tudo em frases curtas, porque ninguém tem paciência para ler hoje em dia. Coloca esse texto em tópicos, foi o que mais ouvi. No começo, uma lágrima imaginária rolava pelo meu rosto sempre que o cliente falava isso.
Então, tudo que eu sempre pensei e virava post no Hialoplasma começou a ficar preso dentro da minha cabeça, sem nenhuma válvula de escape. Comecei a ler mais e mais, sempre gostei de ler, e agora existe Kindle que facilita a vida, mas ler dá ainda mais ideias para escrever. Também leio sobre pessoas que decidiram fazer o que gostam, independente de dar dinheiro ou não, e sobre geração millennial que inventa novas formas de trabalho. Fui na Bienal do Livro e vi um monte de gente escrevendo um monte de coisa, nem sei se existe leitor para tudo isso. Conheci uma menina, Barbara Morais, que escreveu uma série de livros young adult, e ela tem mais ou menos a minha idade. Pensei, que legal, queria escrever young adult também. Por que eu não escrevo mais?
Fiquei um tempão pensando em fazer um post contando sobre a minha dificuldade em voltar a escrever, querendo explicar o desafio de recomeçar. De vez em quando, tinha umas ideias absurdas (elas geralmente surgem no ônibus ou no banho) e pensava, preciso escrever isso logo antes que esqueça, mas aí demorava e esquecia. Nem sei por que eu demorava.
Até que, esses dias, eu estava na fila do supermercado observando as pessoas, tive uma ideia e vim correndo para casa escrevê-la. Publiquei no mesmo instante, sem nem revisar. Foi assim que eu achei um jeito de voltar a escrever. Foi mais fácil do que imaginava.
Não apaguei os posts antigos do Hialoplasma, eles estão apenas ocultos até eu arranjar um tempo de reler e selecionar o que vale a pena ficar. Foi uma Ana Luiza dez anos mais nova que escreveu tudo aquilo e eu mudei, a vida mudou, o mundo mudou e isso é bom.

3 de novembro de 2016

biomassa de banana verde

Durante vinte e sete anos e meio, fui praticante fiel do sedentarismo. Ninguém era melhor nisso do que eu. Não fazia nenhum tipo de exercício físico regularmente, exceto andar de casa até o metrô e vice-versa. Não acreditava em academias. Esportes me davam medo (imagino mil cenários em que quebro o meu nariz acidentalmente de alguma forma. Pensando bem, esse medo ainda não passou). A partir do ensino médio, educação física não era mais disciplina obrigatória na minha escola, então simplesmente parei de fazer. Nada me tirava do conforto e da segurança do meu sofá.
Mas hoje eu sou uma nova pessoa. Não sei dizer em que momento isso aconteceu (quando as dores na lombar ficaram insuportáveis? Quando viajei para o Peru e achei que não fosse ter força para subir todos os degraus dos sítios arqueológicos que visitei? Quando a balança de bioimpedância da nutricionista marcou que a minha idade corporal era equivalente à de uma pessoa de cinquenta e um anos?), mas decidi que bastava.
Por que eu não poderia ser uma dessas pessoas superfortes? Não aquelas de fisiculturismo, nem tanto, (não vejo sentido em malhar apenas por estética), mas as que têm cada músculo do corpo trabalhado para um propósito. Meu corpo também é um corpo, temos as mesmas partes, os atletas e eu. Meus músculos também existem, só estão enfraquecidos, esquecidos. Talvez, agora, eu consiga encontrar um propósito para eles também - nem que seja o de carregar várias sacolas do supermercado para casa sem sofrer.
Arrumei uma personal trainer e já faz dois meses que acordo todos os dias às seis e quinze da manhã para malhar na academia do meu prédio. Não foi difícil me acostumar à nova rotina. Muitas pessoas me perguntam onde eu arrumo coragem e se eu não tenho vontade de descansar, mas eu sinto que já descansei bastante por vinte e sete anos.
O problema é que, quando você entra nessas de ser saudável, você se pega completamente envolvida nesse universo. E eu sou o tipo de pessoa que, quando se interessa por um assunto, pesquisa e lê absolutamente tudo sobre ele. Eu já me alimentava de forma saudável, mas, de uma hora para a outra, coisas como índice glicêmico viraram assuntos extremamente interessantes para mim.
Até que, essa semana, me peguei vendo um vídeo sobre biomassa de banana verde. Fiquei em estado de choque. Mandei mensagem para uma amiga: Amiga, estou interessada em biomassa de banana verde, o que eu faço? Logo eu! Não sei como isso aconteceu. Eu já tinha comentado com ela que estava a uma melancia na grelha de me tornar seguidora da Bela Gil, mas agora tinha ido longe demais. Óleo de coco, açúcar de coco, farinha de coco? Ok, parece que o coco é a melhor coisa que existe (menos coco ralado, vai entender), isso eu consigo aceitar. Frutas com baixo teor de frutose, chá no lugar de café com leite, nada de carboidrato à noite, chia, linhaça, tudo eu já tinha aceitado. Mas biomassa de banana verde? A que ponto cheguei?
A receita era de brownie de chocolate. Ainda não testei, mas quero fazer. Se ficar bom, eu conto aqui. Só prometo que não vai ter nada de brigadeiro de biomassa. Sou puritana quanto a isso. Se esse dia chegar, por favor, me internem.

2 de novembro de 2016

patriotas

Me mudei há poucos meses para um apartamento novo, um pouco maior do que o que eu morava antes. O que eu morava antes tinha sido meu (via contrato de locação) desde o último ano da faculdade e eu não tinha mesa de jantar nele, não cabia. No novo, cabe.
Estava esperando o elevador quando vi um anúncio no quadro de avisos de algum outro morador do prédio. Eram vários móveis à venda por preços razoáveis. Acho que ele vai se mudar, pensei.
A oferta que me chamou a atenção era a de quatro cadeiras de madeira por trezentos reais, todas. Achei um preço bom - já tinha visto o mesmo modelo na Tok & Stok e, novas, sairiam cada uma pelo valor do conjunto. Ótimo. Só tinha um problema: cada uma era de uma cor. Verde, amarela, azul e branca.
Achei engraçado alguém pensar deliberadamente nessas cores para as cadeiras da mesa de jantar. O que o teria motivado a essa escolha? Teria comprado na época da Copa do Mundo? Todo mundo ficou bem empolgado com isso em 2014, realmente. Será que ele recebeu muitos amigos em casa para ver os jogos?
Elas também devem ter vindo a calhar esse ano, nas Olimpíadas, imaginei. Apesar de não ser o tipo de evento esportivo que as pessoas costumam convidar os amigos para verem juntos. Eu mesma só assistia às competições de ginástica artística com o meu pai.
Descobri que o morador era na verdade dois, um casal. Entrei em contato com a moça e ela me disse que já tinha outra pessoa interessada, mas se ela desistisse as cadeiras eram minhas. Algumas horas depois, ela desistiu. Eram minhas.
Bati à noite no apartamento oitenta e dois. Se eu não tiver chegado ainda, você negocia com o meu namorado, ela tinha me dito. Ele abriu a porta. Era Pablo. Tinha sotaque. Cinco minutos depois, ela chegou. Era Catalina. Argentinos que estavam se mudando de volta para Buenos Aires. As cadeiras não cairiam bem com a decoração de lá, disseram.

1 de novembro de 2016

véspera de feriado

Gosto de observar as pessoas na fila do caixa rápido do supermercado. É fim do dia, amanhã é feriado, e fico imaginando quais são os planos delas para a noite. Na minha frente, uma moça ruiva de cabelos cacheados e piercing no nariz - não aquela argola comum, mas um modelo indiano, bem no meio - não é cliente Mais, mas deseja CPF na nota. Estava levando uma um maço de espinafre, dois limões e uma Heineken gelada, que abriu logo após pagar. Recusou a sacola plástica, mas não entendi se era porque ela se preocupa com o meio ambiente ou se não quis pagar os oito centavos que ela custava. Chamei a compra dela de "refeição equilibrada".
Atrás, um senhor na faixa dos cinquenta anos, muito pequeno (de verdade, na altura do meu ombro, e olha que eu tenho só um metro e sessenta de altura), colocava na esteira três long necks de cerveja importada, meio quilo de carne moída (patinho), uma bandeja de queijo mussarela e um saco de molho de tomate pronto. Imagino que ele vá fazer uma lasanha chegando em casa - talvez para um jantar especial com uma mulher. Inventou de surpreender a esposa. Ou conheceu alguém no Tinder e marcou encontro. Já tinha as folhas de massa pronta, por isso teve a ideia da lasanha.
A moça que atende no caixa tem um sorriso simpático para quem está trabalhando até tarde na véspera de feriado e pergunta para o rapaz que trabalha no estoque e estava ali perto: Ben & Jerry's ainda está na promoção dois por um? O sorvete? Ele balança a cabeça, mas ela sorri: consegui passar agora há pouco. Ué, ele dá de ombros. Fiquei pensando ainda bem que já é a minha vez, senão ia querer voltar e pegar dois potinhos e isso ia estragar a minha dieta. O senhor perguntou: como é? Cerveja, dois por um? Ficou chateado porque era sorvete.
Na fila da frente, um rapaz está tirando a compra da cesta. Ele é loiro, alto, deve ter uns dezoito anos, estar cursando a faculdade e morando sozinho pela primeira vez. Enfileira uma penca de bananas, um pacote de bolachas, uma barra Hershey's de um sabor que não consigo identificar (algum lançamento, parecia chocolate belga ou mais ao leite que o ao leite) e dois pepinos japoneses. Ele não colocou nem as bananas nem os pepinos nos saquinhos plásticos, estão soltos. Talvez ele, sim, se preocupe com o meio ambiente. Ou talvez nem tenha notado esse detalhe. Me pergunto o que ele vai fazer com aqueles dois pepinos japoneses.
E a minha compra? Uma bandeja de salmão já cortado em sashimi. Queria um jantar gostoso e já tinha os cogumelos em casa, só faltava o salmão mesmo. Mais barato do que ir à temakeria, achei, e está dentro do cardápio da minha dieta (menos o shoyu, mas nada é perfeito).