Esses dias atrás, eu estava observando minha cachorra dormir. Às vezes, ela tem uns espasmos, mexe as patinhas, emite uns sons indecifráveis. Às vezes, ela até chora. Então, fiquei pensando: o que será que os cães sonham? Porque, para ela reagir daquela forma, só pode estar sonhando. Foi então que imaginei o sonho mais maravilhoso da vida da Samanta.
Ela estaria dormindo no quintal, no seu lugar de sempre, lá nos fundos. Abriria os olhos, bem devagar, ainda naquele estágio em que a gente não sabe se está dormindo ou está acordado, e veria meus pais a chamando para entrar em casa (percebe que foi esse o som que a fez despertar). Eles pedem: “Samantinha, vem aqui para dentro, vamos fazer carinho na sua barriga e atrás da sua orelha, vamos deixar você mastigar o controlerremoto, vamos assistir ao DVD de Marley e Eu. Vem, Samatinha”. Ela sorriria aquele sorriso de cachorro, ainda um pouco confusa com a cena, mas feliz, extremamente feliz. Naquele momento, veria que não existe a Mafalda. Não há nenhum outro cachorro no quintal latindo para ela, aquele latido fino de filhote, mordendo seu pescoço e puxando sua perna para brincar. Era só ela, a única da casa, a rainha soberana do lar.
Então se levanta para ir em direção à porta. Mas, de repente, em uma fração de segundo, tudo muda. Ela sente o cheiro, percebe algo de diferente no ar. Quando vira seu grande focinho preto em direção ao outro lado do quintal, quase enfarta: vê pães. Pães de sal. Muitos. Milhares. Milhões. Cobrindo o jardim. Cobrindo a casa. Quer dizer, toda a casa é feita de pães. Pão fresquinho, não aqueles duros que meu pai costuma dar a ela e que leva um tempão para mastigar. Não, aqueles ali são do tipo que poderiam ser devorados em uma bocada só. Ela analisa a situação: deveria começar a comer a maior quantidade possível, o mais rápido que pudesse, antes que tudo desaparecesse, ou optaria por mastigar delicadamente (coisa que ela nunca faz), apreciando o sabor de cada pão daquele monte Everest de pães? Meus pais já não existem mais. Samanta acaba decidindo pela primeira opção – nunca se sabe o que pode acontecer. Ali, só ela e os pães, no mundo do pãozinho francês cheirosinho, a grande padaria universal. Um mundo ideal.
18/02/2009
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