18/02/2009

O sonho da Samanta

Esses dias atrás, eu estava observando minha cachorra dormir. Às vezes, ela tem uns espasmos, mexe as patinhas, emite uns sons indecifráveis. Às vezes, ela até chora. Então, fiquei pensando: o que será que os cães sonham? Porque, para ela reagir daquela forma, só pode estar sonhando. Foi então que imaginei o sonho mais maravilhoso da vida da Samanta.
Ela estaria dormindo no quintal, no seu lugar de sempre, lá nos fundos. Abriria os olhos, bem devagar, ainda naquele estágio em que a gente não sabe se está dormindo ou está acordado, e veria meus pais a chamando para entrar em casa (percebe que foi esse o som que a fez despertar). Eles pedem: “Samantinha, vem aqui para dentro, vamos fazer carinho na sua barriga e atrás da sua orelha, vamos deixar você mastigar o controlerremoto, vamos assistir ao DVD de Marley e Eu. Vem, Samatinha”. Ela sorriria aquele sorriso de cachorro, ainda um pouco confusa com a cena, mas feliz, extremamente feliz. Naquele momento, veria que não existe a Mafalda. Não há nenhum outro cachorro no quintal latindo para ela, aquele latido fino de filhote, mordendo seu pescoço e puxando sua perna para brincar. Era só ela, a única da casa, a rainha soberana do lar.
Então se levanta para ir em direção à porta. Mas, de repente, em uma fração de segundo, tudo muda. Ela sente o cheiro, percebe algo de diferente no ar. Quando vira seu grande focinho preto em direção ao outro lado do quintal, quase enfarta: vê pães. Pães de sal. Muitos. Milhares. Milhões. Cobrindo o jardim. Cobrindo a casa. Quer dizer, toda a casa é feita de pães. Pão fresquinho, não aqueles duros que meu pai costuma dar a ela e que leva um tempão para mastigar. Não, aqueles ali são do tipo que poderiam ser devorados em uma bocada só. Ela analisa a situação: deveria começar a comer a maior quantidade possível, o mais rápido que pudesse, antes que tudo desaparecesse, ou optaria por mastigar delicadamente (coisa que ela nunca faz), apreciando o sabor de cada pão daquele monte Everest de pães? Meus pais já não existem mais. Samanta acaba decidindo pela primeira opção – nunca se sabe o que pode acontecer. Ali, só ela e os pães, no mundo do pãozinho francês cheirosinho, a grande padaria universal. Um mundo ideal.

0 comentários: